| |
Até 2005
Sob o título ´Coragem é a marca de uma pensadora da modernidade´ o ensaísta, ficcionista e poeta Silviano Santiago fez um belo obituário de Susan Sontag. Para os que assinam UOL ou Folha, o link é este. Silviano é um dos muitos mineiros dos quais eu falei num post anterior, os que reinventam o Brasil ao chegar no Rio. Introdutor do pensamento da pós-modernidade no país, autor, entre outros, dos fabulosos romances Em Liberdade, Stella Manhattan e Viagem ao México, Silviano nos deu um susto quando sofreu um derrame. Depois retomou sua extraordinária produtividade. Hoje mostrou de novo ser um dos intelectuais mais atentos do país. Retrospectivamente, fez o insulto assinado ontem por Ascher parecer ainda mais ridículo. Obrigado, Silviano, sempre.
Ai ai ai:
Eu aceitei um gentil convite de Adhemar Altieri, editor-chefe do portal anglófono InfoBrazil.com, para publicar um balanço destes 24 meses do governo Lula. Para o InfoBrazil.com já escreveram pesos-pesados como Eduardo Suplicy, Delfim Netto, Dom Paulo Arns e outros, além de um baita time de contribuidores internacionais. O InfoBrazil.com é atualizado nos fins de semana e eu entregarei o texto no dia 7 de janeiro. Que Iemanjá me ilumine e me dê moderação.
Créditos aos blogueiros:
Agradeço a todos os blogueiros mais antigos que fizeram que eu me sentisse bem-vindo, seja lendo, comentando ou linkando o Biscoito, seja trocando emails gentilmente, seja respondendo comentários meus em outros blogs. Têm sido incrivelmente legais comigo Nemo Nox, Alexandre Cruz Almeida, Leila Couceiro, Rafael Galvão, Smart, Ane Walker, DaniCast, Alfred Neuman, Cora Rónai, Ricardo Schott, Alexandre Inagaki, Marcus Pessoa, Cláudio Costa, Pedro Dória, Guto, Mônica, Viajandona, Fernando, Sérgio Fonseca, Felicia Luisa, Biajoni e Antônio Carlos.
Saio amanhã para um paraíso com meus filhos Alexandre e Laura e só volto a este blog no dia 03 de janeiro. Axé babá nesse ano novo.
Escrito por Idelber Avelar às 22h13
[]
[envie esta mensagem]
Susan Sontag (1933-2004), resquiescat in pace
Quando a pop art ainda engatinhava em reconhecimento crítico, ela introduziu o mundo ao termo camp. Quando a histeria anti-comunista ainda sustentava a popularidade da guerra do Vietnã, ela chamou a estudantada e foi prá rua. Ainda no mesmo 1966-67, enquanto correntes ilustres do pensamento contemporâneo, como a hermenêutica ou o estruturalismo, debatiam a natureza da interpretação, ela escreveu Against Interpretation e liberou toda uma geração de críticos que viriam depois. Quando as conversas sobre a fotografia ainda se rastejavam no tema da ´realidade´, ela escreveu On Photography e fez disso o estudo de uma arte. Quando os EUA chegavam, atrasados como de costume, a pensadores do quilate de Walter Benjamin e Roland Barthes, ela explicou à gringada porque eles eram fundamentais. Quando a doença a agarrou, ela reagiu com literatura. Entendeu como ninguém a ideologia que se formou em torno da AIDS. Já com identidade mundialmente reconhecida como ensaísta, escreveu uma linda história de amor.
Um dia depois do 11/09, teve a coragem de destoar do coro dos etnocêntricos que acham que o próprio luto é sempre mais importante e especial que o luto alheio, e declarou na New Yorker, ´covardes os terroristas não eram´ e ´ataque contra a civilização não, ataque contra a única superpotência´. Quando Bush tinha 90% de popularidade, ela foi das poucas que levantou a voz contra a invasão do Afganistão. Aturou o ódio da corja.
Judia, jamais deixou de protestar contra o genocídio anti-palestino nos territórios ocupados. Mesmo assim recebeu o Jerusalem Book Award de 2001. Adorava o Brasil e conhecia profundamente Machado de Assis. Veio várias vezes e sempre permaneceu alheia ao ti-ti-ti. Dava o recado e pronto. Susan Sontag tinha, de sobra, a característica que eu mais admiro num intelectual: estar pronto para defender uma posição radicalmente minoritária.
A última vez que a vi, nas escadarias da Columbia University, ela surpreendeu de novo, e ao invés do discurso anti-Bush que todos esperávamos, ofereceu um protesto em defesa dos prisioneiros políticos de Cuba e uma alfinetada em García Márquez, por defender alguns presos políticos pero no otros. Concluindo meu livro sobre a violência, encontrei o maravilhoso texto de Susan Sontag sobre a dor dos outros. Corajosa e contundente como sempre. Ela era incrivelmente sexy e muito, muito andrógina.
No dia em que ela morreu, Gerald Thomas escreveu um lindo obituário recordando seus encontros com ela. Um dia depois de sua morte, o maior jornal do Brasil publicou um insulto do Sr. Nélson Ascher, que abusou do direito de cuspir na memória de uma pensadora que ele não leu (e se leu deve ler de novo, enquanto se dedica, esperamos, a traduzir poesia e não falar de coisas que não conhece). Não vou nem linkar a palhaçada do Sr. Ascher. Achem se quiserem. Hoje eu faço luto por Susan Sontag e nenhum insulto jornalístico vai perturbá-lo. Rest in peace, Susan.
Escrito por Idelber Avelar às 19h43
[]
[envie esta mensagem]
Lista dos melhores livros de todos os tempos
Já há alguns dias saiu o resultado da votação promovida pelo Liberal Libertário Libertino dos melhores livros de ficção de todos os tempos. Este blogueiro votou e replicou o voto aqui neste post. Sobre a bagunça que é escolher os melhores de todos os tempos eu fiz, usando o futebol e a música como exemplos, este post aqui.
Você pode conferir os dez mais votados neste post do Alexandre.
Dos dez nos quais eu votei, só não emplacaram um lugar entre os trinta mais votados O Homem sem Qualidades, de Robert Musil (previsível) e os Contos de Edgar Allan Poe (indesculpável). No geral, adorei a lista, que mostra o bom gosto do pessoal que lê o LLL.
Entre os mais votados que, na minha opinião, não mereceriam estar nem na lista de presentes para aquele cunhado que você detesta, estão O Mundo de Sofia (be-a-bá de filosofia com personagens), A Revolução dos Bichos (Rafael Galvão já disse tudo) e o Memorial do Convento, de Saramago (romance adorado por muita gente boa, mas que eu terminei por puro masoquismo).
Agora, Cem Anos de Solidão em segundo lugar não dá. Não sei se é por trabalhar na área de literatura hispano-americana e de ter me formado no meio da ideologia gosmenta do realismo mágico, mas não consigo achar graça. Já li três vezes, já dei aula sobre, etc. etc. mas prá mim depois de duas ou três daquelas brincadeirinhas eu já estou de saco cheio. Prá mim não é nem o maior romance colombiano de todos os tempos.
Com García Márquez ocorre comigo o mesmo que com Tom Jobim: reconheço os méritos, a importância histórica, as inovações estilísticas, patati-patatá, mas não me faça ouvir `Luzia´ de novo, nem ler Cem Anos de novo. De García Márquez eu só gosto mesmo da novelinha El coronel no tiene quien le escriba (Ninguém escreve ao coronel), delicioso relato de um aposentado que espera um papel no correio todas as sextas-feiras.
O sobre-dimensionamento, nos EUA, da importância do realismo mágico (confundido por tantos gringos com a totalidade da literatura latino-americana) assim como o sobre-dimensionamento, no Brasil, da importância da bossa nova (confundida por tantos com o ponto de partida e ponto de chegada de tudo) causaram danos irreparáveis ao prazer que eu consigo extrair desses produtos culturais.
Por sorte, o vencedor não foram as formigas voadoras de GG, mas Crime e Castigo. No final do mês de janeiro vamos iniciar a conversa na blogosfera sobre este romance.
Dostoiévski foi o primeiro romancista que eu descobri, ainda menino. E ainda hoje é meu romancista favorito. Votei em Os Irmãos Karamazov, mas Crime e Castigo está bom também. Aguardo a conversa.
Escrito por Idelber Avelar às 13h04
[]
[envie esta mensagem]
Novidades Literárias Argentinas
A excelente editora Beatriz Viterbo, levada a cabo por um grupo de mulheres na cidade de Rosario, Argentina, nos traz sua fornada de fim de ano. Minhas sugestões são:
Para quem quiser mergulhar num dos mais importantes poemas argentinos, saiu uma edição anotada de El gualeguay, tour de force narrativa de Juan L. Ortiz. Gualeguay é o nome do departamento da Província de Entre Ríos onde nasceu o poeta. O Gualeguay havia sido publicado como parte da Obra Completa de Juan L. e sai agora em edição anotada por Sergio Delgado para a Beatriz Viterbo. Um dos maiores poetas argentinos do século XX, Juan L. Ortiz traduziu Ungaretti, Pound, Éluard e poetas chineses. Lapidou, na poesia, aquela metafísica da Argentina-lá-de-dentro-que-não-é-Buenos-Aires que seu compatriota Juan José Saer compôs na prosa. Juan L. também é responsável por um dos títulos de livro que eu mais adoro, A Margem que se Abisma (1970). Recomendo mesmo.
Ainda não lido por este blogueiro é o novo livro de Sylvia Molloy, Varia Imaginación, coleção de contos e breves relatos, também novidade lá na Beatriz Viterbo. Sylvia Molloy é argentina, radicada em Nova York, onde leciona na New York University. Sylvia é autora de vários livros acadêmicos e também do importante En breve cárcel (1981), relato de uma mulher anônima que se fecha num quarto para uma experiência de escrita onde não fica pedra sobre pedra. Tenho infinita admiração por Sylvia Molloy e o Varia Imaginación já está na fila.
Intitulada El tilo é a novidade do peça mais figuraça da literatura argentina, César Aira, aquele-que-publica-cinco-livros-por-ano. Se nunca leu César Aira e quer descubrir a mais maluca e insólita das obras narrativas, comece por El volante ou Dos payasos. Indiferente você não vai ficar.
Escrito por Idelber Avelar às 00h14
[]
[envie esta mensagem]
....... pô Idelber você tinha feito resolução de não ficar falando de política aqui no blog afinal não são literatura e música mesmo o seu negócio e você não anda num estado de estupefação com o que foi feito de seu ex-partido e prá piorar em fase de absoluto ceticismo quanto às saídas políticas para as coisas mas aí vem ninguém menos que Chico Buarque de Hollanda que você adora mas que coitado como todos os apoiadores de esquerda deste governo anda tendo que fazer malabarismos lógicos para justificar suas posições e aí vem o Chico eu dizia e diz simplesmente ´Lula trouxe o acúmulo de esperanças de muito tempo para um tempo em que elas não podem mais se realizar. E aí não é culpa dele´ como não é culpa dele cara-pálida é culpa de quem então da conjunção dos astros do time do Botafogo ou dos herdeiros de Billy the Kid de quem é a culpa cara-pálida da promoção desse monetarismo ortodoxo e desse messianismo auto-congratulatório como se a eleição dele ao invés do começo da mudança fosse prova de que as coisas já mudaram e que está tudo bem em Pindorama afinal até um torneiro-mecânico pode ser presidente não é maravihoso este país e Chico diz que ´reage´ contra as críticas ´exageradas´ a Lula mas não consegue apontar nem um mísero avanço deste governo em nada a não ser no fato de que um torneiro foi eleito não é maravilhoso isso e aí o Chico vai e diz que o Lula sabe o que o ´cara do rap´ está cantando coitado do Chico não consegue nem dar nome próprio ao ´cara do rap´ afinal ele diz que ´tenho pouco contato com o rap. Na verdade, ouço muito pouca música. O acervo já está completo´ então é isso aí cara-pálida o ´cara do rap´ está dizendo algo que o Lula não pode ignorar mas os medalhões da MPB podem afinal ´minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música´ que maravilha hein só aprimorou ninguém piorou ninguém se repetiu ninguém disse bobagem ninguém reciclou canções fracas e o Chico coitado dando tiro prá todo lado se pergunta ´se as pessoas não querem ouvir as músicas novas dos velhos compositores, por que vão querer ouvir as músicas novas dos novos compositores?´ e não lhe ocorre que as músicas novas do novos podem ser melhores que as músicas novas dos velhos mas isso claro é impensável para essa turma que aprendeu a ver a música como se ela fosse uma linha evolutiva que termina gloriosamente neles e em mais ninguém e aí chega a parte realmente irritante da entrevista Chico diz ´vem a bossa nova, que remodela tudo -e pronto. Se você reparar, a própria bossa nova, o quanto é popular ainda hoje, travestida, disfarçada, transformada em drum'n'bass´ taí não podia faltar a glorificação da bossa nova nesse advérbio ´pronto´ já está toda a ideologia asquerosa da bossa nova como começo e fim de tudo essa bobajada tão Copacabana de que o Brasil começa e termina no Beco das Garrafas e que o que acontece de inovador hoje já estava na bossa nova onde é meu deus do céu que Chico foi ver bossa ´travestida´ em drum´n´bass será que ele tem idéia tem noção de que o ´cara´ do drum´n´bass não está nem aí para a bossa nova será que ele tem idéia do que é drum´n´bass e quais são suas influências será que ele tem noção da presepada que é dizer isso só mesmo sem pontuação para desconstruir essa parvoíce porque aí Molly Bloom disse yes yes I´m going to the movies.....
Escrito por Idelber Avelar às 18h27
[]
[envie esta mensagem]
Disco da Semana - Cássia Eller, Ao Vivo (1996)

Cássia Eller: roqueira, blueseira, sambista, maldita, lésbica, atleticana. Mostrava os peitos, coçava o saco e cuspia. Na Playboy, enloqueceu homens e mulheres. Quando Cássia começou, o Brasil não sonhava em ter um casal de lésbicas na novela das oito. Ao morrer, revolucionou a legislação sobre a custódia de crianças no Brasil, com a vitória inédita de sua companheira Eugênia nos tribunais, garantindo a guarda de Chicão a quem de direito ela pertencia.
Em termos sociais, Cássia foi tão transformadora que às vezes se esquece de quão importante foi como cantora. Em recursos vocais, expressão, interpretação, repertório e tudo mais, foi tão grande como Elis. Amamos-na eu, minha mãe, minha avó e minha filha. Nenhuma outra cantora atravessa o tempo assim. Cássia deu interpretações definitivas aos dois grandes letristas de sua época, Cazuza e Renato Russo. Sepultou a separação que existiu entre MPB e rock nos anos 80. Cássia passava do satírico ao cômico ao trágico ao elegíaco ao carnavalesco. Era capaz de incrível lirismo e romantismo em suas interpretações. Voltava à sujeira punk mais radical, tranqüila.
Quem gosta de rock, confira o Marginal ou Veneno Vivo. Meu favorito é este Ao Vivo, acústico, com uma linda seleção de canções e o violão de Cássia em melhor forma que nunca. O repertório vai de Caetano (´Eu sou neguinha´) a Nando Reis/Brown/Marisa Monte (´ECT´), de Ataulfo Alves (´Na cadência do samba´) a Renato Russo (´Por enquanto´, ´Música Urbana II´), de Raul Seixas (´Metrô linha 743´) a Frejat e Cazuza (´Malandragem´), de Arnaldo Antunes (´Socorro´) a João do Vale (´Coroné Antônio Bento´).
Perdi a conta de quantas vezes vi Cássia até sua morte em 2001. No seu último show em BH, memorável, ela trouxe-nos um presente. Tirou Rita Lee da cartola, para uma super versão de Roqueiro brasileiro / sempre teve cara de bandido. Rita Lee sempre teve profundo respeito e admiração por Cássia.
Cássia amava o Galo sobre todas as coisas. Adorava sair dos camarins com o manto alvinegro, gritando, torcedora, e rindo da reação do público.
Ninguém foi fotogênica como ela. Ninguém inspira tantos jovens a aprender novas cifras. Até os acadêmicos já perceberam sua genialidade. Foi a maior de sua geração, sem dúvida. Em importância cultural na história do Brasil, só Carmen Miranda se ombreia com Cássia.
Escrito por Idelber Avelar às 03h30
[]
[envie esta mensagem]
Low Fi no Matriz
O Matriz é uma daquelas casas de show que você não encontraria nunca por sua própria conta. Fica no porão de um terminal rodoviário, em baixo daquele que talvez seja o prédio mais famoso de BH, o JK, esse monumento ao fracasso da arquitetura modernista.
Pois bem, ontem à noite eu consegui arrancar os amigos de casa prá ver o que eu achei que seria uma festa com DJs. Chegamos lá e acabou que eu tinha a informação errada. Era noite de show de uma banda chamada Low Fi.
Low Fi? Que porra é essa? Descubro que é uma dissidência de uma banda da qual eu gostava muito, o Sexo Explícito (prá quem não conhece, o Sexo Explícito é um dos precursores do Pato Fu). Começa o show e eu me encanto com a banda: swing-samba-soul muito competente. Três caras e uma menina. Guitarra, baixo, bateria e chocalhinho. A guitarra tem momentos que lembram (ou será que eu já tinha bebido a quinta cerveja?) o cavaquinho do Fred 04. Somos só uns 15 na platéia (numa casa de shows de cabe uns 300). Mas está todo mundo adorando. A canção sobre a Maria Joana sacode o público. Eu só lembro do refrão: queimando tudo até a última ponta....
No final, eles dizem: a saideira para que o Low Fi entre numa boa. E aí eu me toco que aqueles não eram o Low Fi. Era a banda de abertura. Os aplausos são enfáticos, e o vocalista, bem humorado, retruca: son pocos pero sinceros... Do fundão da platéia a gente grita, nome da banda!!! Nome da banda? Não tem nome. É Deco Lima e banda. Muito bons.
Quando entra o Low Fi o garçom já está se oferecendo prá trazer a cerveja em pacotes, ao invés de latinha por latinha. Eu tinha gostado tanto da primeira banda que vou com um pouco de má vontade. Mas o Low Fi arrrebenta. Formação que eu gosto muito: guitarra, baixo, bateria e saxofone. Som mais pesado que o da banda anterior, mas também mais quebradão, com mais variações inesperadas. Ainda na praia samba-soul, o trabalho lembra um pouco as bruxarias do novo mago Max de Castro. O vocalista é competentíssimo saxofonista. Eu e as animadas 15 pessoas da platéia custamos a deixar os caras irem embora. Depois do show, camarim, ti-ti-ti e coisa e tal.
Das duas cidades onde moro, Nova Orleans tem uma oferta musical superior, em quantidade e qualidade. Agora, BH tem mais surpresas malucas. Comida e música em New Orleans são um pouco como, prá mim, filmes de Woody Allen. Você vai sabendo que é bom, mas sabendo que, depois de um tempo, não vai se surpreender muito. Em Belo Horizonte, cavucando, você encontra coisas insólitas. Low Fi, guardem esse nome. Quando eles forem famosos você vai poder dizer que os conhecia quando eles davam shows prá 15 pessoas.
Feliz Solstício, todo mundo! Nesse 2005 que se avizinha, prometo mais música, mais literatura, menos política e menos futebol. Vamos ver se cumpro.
Escrito por Idelber Avelar às 13h00
[]
[envie esta mensagem]
2004 in a Nutshell
A Revista Time escolheu George Bush como a personalidade do ano, mas 60% dos leitores da própria revista não concordam.
No Brasil, a Istoé escolheu, como a personalidade do ano, José ´não tenho nada com isso´ Dirceu, mas ninguém entendeu.
Na ´nova´ administração republicana, Bush já planeja uma daquelas blitzes midiáticas contra o Social Security (Previdência Social). Objetivo? Privatização total.
Nos EUA, a direita, não satisfeita em controlar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, lança uma campanha para ´salvar o Natal´, que segundo eles, anda ´sob ataque´.
Já vimos esse filme mil vezes e agora está rolando com a rede MSNBC: um veículo da mídia americana que mantenha um mínimo de decência e compromisso com o jornalismo isento é violentamente atacado por uma blitz de direita. A campanha cresce até o ponto em que, aterrorizado pela possibilidade de ser associado ao fantasma do ´liberal bias´, o veículo em questão se transforma em pouco mais que porta-voz da histeria conservadora.
Na blogosfera progressista gringa:
1. Rude Pundit imagina o que pensaríamos de um país muçulmano que se mobilizasse para detonar as minorias religiosas da mesma forma como o faz agora, nos EUA, a histeria da direita cristã.
2. Michael Bérubé faz o balanço de fim de ano de um belo blog de sátira cultural-política que começou como hobby de um acadêmico e terminou 2004 com quase 650.000 visitas. Recomendo os arquivos.
Em mais um valente passo rumo ao socialismo, o Congresso brasileiro aprovou o projeto das Parcerias Público-Privadas, segundo as quais o Estado ´garante´ retorno para investimentos privados, eliminando assim a essência do capitalismo que é o risco. Como é que Lênin não pensou nisso? O projeto é conhecido como PPP, ou Passando a Perna na Patuléia.
Falando sobre o episódio do afastamento dos delegados da PF que autuaram o marqueteiro do Presidente, Guilherme Fiuza pegou bonito.
Escrito por Idelber Avelar às 11h45
[]
[envie esta mensagem]
Parabéns Dr. Flávio
Rolou na sexta-feira passada e foi na Faculdade de Educação da UFMG. Uma pessoa muito especial virou doutor.
Flávio Couto e Silva defendeu sua tese de doutorado intitulada O canto civilizador: Música como disciplina escolar nos ensinos primários e normal de Minas Gerais durante as primeiras décadas do Século XX.
A tese analiza o lugar da educação musical nos currículos escolares em Minas – as aulas de canto orfeônico, por exemplo, foram poderoso instrumento para inculcar civismo na patuléia. Villa-Lobos estava no meio da parada.
Dr. Flávio é dessas figuras que, quem tem um blog, tem que apresentar. Licenciado em história, mestre em música com dissertação premiada em BH e agora doutor em educação. Líder na Coordenadoria de apoio e assistência à pessoa deficiente do Estado de MG, exímio violonista, cantor, escritor e compositor.
Tudo isso já seria extraordinário em qualquer circunstância, mas o caso de Flávio tem um detalhe-zinho.
Devido ao glaucoma, desde a adolescência Flávio tem deficiência visual de praticamente 100%.
Auto-comiseração ou baixo astral? Passam longe. Sai cedinho prá trabalhar, volta tarde, estuda, escreve, publica, dá palestras aqui e no exterior, encanta com o som do seu violão, compõe, toma cerveja com os amigos e ama sua companheira Adriana. O dia do cara tem 48 horas.
Eu tenho a honra de estar na página de agradecimentos dessa tese e mais honra ainda de ser amigo da fera há 18 anos.
Parabéns Frajola!
Escrito por Idelber Avelar às 11h22
[]
[envie esta mensagem]
Pisoteando o Programa do PT mais um mucadinho
O Catarro Verde já protestou e eu acrescento minha voz já afônica. O Governo Lula pisoteia e cospe no programa do PT mais uma vez: o Senado acaba de aprovar a Medida Provisória 223/04 (sim, Medida Provisória, lembra? é aquilo que a gente criticava no FHC!) que libera o plantio da soja transgênica para a safra 2005. O relator foi Delcídio Amaral (PT-MS) e o empurrão veio do Planalto.
Lembre-se: o plantio para 2004 foi aprovado também por Medida Provisória com a desculpa de que, como a soja transgênica já havia sido plantada, tinha que ser regularizada. Ou seja, o crime já foi cometido, então adeqüemos a lei a ele.
Lembre-se também que não há nenhuma pesquisa conclusiva que garanta absolutamente nada sobre essa soja que chegará às nossas cozinhas já no final do ano que vem.
O voto solitário contra a maracutaia foi da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL).
E aí Ministra Marina Silva, vai agüentar até quando?
Escrito por Idelber Avelar às 23h17
[]
[envie esta mensagem]
Passeando na blogosfera
Ligado
O Milton Ribeiro já devorou e adorou o Nocturno de Chile, de Roberto Bolaño, recém lançado no Brasil pela Companhia das Letras. O Bolaño, ainda meio desconhecido por aqui, era o maior prosador chileno vivo – junto com Diamela Eltit – até que morreu ano passado, bastante jovem, em Barcelona. Além do Noturno, ele é autor de umas 15 outras obras. Minha favorita é Los detectives salvajes, um calhamaço de 600 páginas que brinca com os códigos do romance policial.
Diatribe anti-Papai Noel
rolando lá na Praia do Nélson, e está demais. Concordo em gênero número grau: Papai Noel é como jogador de futebol, não deveria abrir a boca.
Continua o mistério
das duas dezenas de visitas diárias de Montevidéu a este Biscoito. Eles vêm todo dia e, bem uruguaios, não falam nada! Mas voltam. Gracias, y hablen cuando quieran. En lunfardo también se puede.
Fazendo milagrescom o template muito pouco amigável do UOL, reorganizei os links à esquerda. Tirei velharias da campanha de John Kerry e sites que não visito mais. Lá em cima, incluí links a uns poucos livros e ensaios meus. Depois, um par de links de futebol e outro par sobre política, só prá identificar a voz de quem fala. Também organizei os links sobre a cultura da minha segunda pátria, a Argentina. E depois, em gloriosa ordem alfabética, os blogs que eu ando visitando quase diariamente. Agora só falta eu criar vergonha na cara, assumir que virei blogueiro, e passar para um servidor decente. I´m working on it, me aguardem.
Escrito por Idelber Avelar às 10h59
[]
[envie esta mensagem]
Acabou o Futebol, volta a Política
Deu uma entrevista
na Folha de São Paulo desta segunda-feira a maior pensadora argentina viva, Beatriz Sarlo. Se é assinante do UOL, vale a pena ler online. Maoísta nos anos 70, introdutora de ensaístas europeus como Raymond Williams e Pierre Bourdieu na Argentina, há 30 anos figura central em debates sobre cultura e democracia na América Latina, Beatriz é uma daquelas intelectuais de tirar o chapéu. Depois do golpe de 1976, com a vida em risco como todos os militantes progrê da época, Beatriz decide ficar no país e fundar, em condições de horrenda censura, a legendária revista Punto de Vista, que segue firme e forte até hoje. Os brasileiros, que pena, só conhecem um livro dela, Cenas da Vida Pós-Moderna. Ela escreveu mais de 15. É daquelas que sabem falar de Borges, de fliperama e da paixão das mulheres dos anos 20 pelo folhetim. Em todos os debates políticos da Argentina desde os 70, ela tomou posição, com a coragem de sempre. Beatriz é um de meus ídolos. Tenho vontade de traduzir e compilar alguns ensaios de Beatriz aqui no Brasil. Foi legal vê-la na Folha.
É ou não é patético
que o Ministro-Chefe da Casa Civil da República Federativa do Brasil dê uma entrevista como a que deu José Dirceu domingo na Folha? Para quem não leu, José Dirceu diz, basicamente: tenho minhas opiniões sobre a política econômica, só as ofereço quando manda o presidente, depois me calo, e não vou falar nada para não criar problema político, porque afinal sou do governo. Mas que fique dito que tenho minhas opiniões sobre a política econômica, o que não me impede de dar-me muito bem com o Ministro Palocci. Aí ele chega nas reuniões internas do PT e diz que é preciso fortalecê-lo contra as ´outras forças´ do governo, esperando assim arrebanhar os 30% do PT que estão insatisfeitos. Depois ele vai ao maior jornal do país e diz, ´sou ministro-chefe mas não sou chefe de nada. Não tenho nada com isso´.
O PSOL conseguiu
as 450.00 assinaturas de que necessitava para legalizar-se como partido. Este blogueiro ofereceu a dele, mesmo não tendo absolutamente nenhum plano de juntar-se ao partido. Heloísa Helena tem, neste momento, 3% das intenções de voto espontâneas para presidente da República. Mesmo tendo sido impedida pelo PT de disputar a prefeitura de Maceió.....
Continua em estágio avançado
a minha queima de balangandãs do PT. 23 anos de casamento, gente, não é mole não. Camisas e bandeiras já haviam ido, mas ontem foram as agendas e, grande avanço, o mouse pad!! Cada penduricalho que vai é uma alegria!
Escrito por Idelber Avelar às 22h15
[]
[envie esta mensagem]
Tarde inesquecível no Mineirão

(hoje os links vão em lilás, porque linkar o Galo de azul não pode)
Eu já disse isso em outro lugar. Se um antropólogo marciano descesse no planeta Brasil para entender a magia do futebol – não a fórmula nem as táticas – mas a essência da paixão pelo futebol, ele poderia começar com o Flamengo no Maracanã ou o Corinthians no Morumbi. Mas não teria o curso completo até presenciar a mais apaixonada e mística torcida, a legião que segue o Clube Atlético Mineiro, a Massa do Galo.
Meninos, eu vi: a Massa ganhou mais uma so-zin-ha. Foi o maior público do campeonato brasileiro de 2004. O borderô oficial foi 47.002. Mas havia 60.000 fanáticos no Mineirão. O Galo há quatro anos não é campeão de nada. Desde 1971 não ganha um título nacional importante. O time estava em 20o lugar e precisava vencer para não ser rebaixado. E a Massa bateu o recorde de público do Campeonato. Quem explica isso?
2:40, depois de uma manhã maravilhosa com os filhos, cervejinha na mão, vestido com o manto sagrado branco (por sugestão da leitora @lice), este blogueiro estaciona no lugar de sempre. 2:50, cena comovente: um ônibus de Belém do Pará lotado. Converso com M., uma dessas lindas morenas jambo do norte: ´viemos empurrar o Galo´. Em 30 anos de visitas a estádios de futebol, é a primeira vez que vejo alguém atravessar o país para ver um jogo que não envolve um time de seu estado. 3:00, abraços nos amigos da Galo Prates, que me mostram as novas bandeiras. Chamam-me carinhosamente de Galo Gringo. 3:10, abraços na única torcida organizada musical do futebol brasileiro, a Galo Metal. 3:20, tomo meu lugar nas cadeiras numeradas, ao lado do legendário torcedor P., que lembra que no dia 19/12/71, há exatamente 33 anos, ele presenciava no Maracanã o primeiro título brasileiro do Galo. Digo a P. que meu filho Alexandre também é do dia 19/12, que ele completa hoje 8 anos e que dali sairei com ele e Laura para comemorar.
3:30, já quase não há lugares vazios no Mineirão. Uma certa tensão percorre o estádio. Ninguém ali ignora que o São Caetano tem uma equipe superior à nossa. Digo a P.: o time terá que encarnar o espírito do animal. 3:40, lembro-me dos jogos em que a Massa lotou o estádio e teve decepções traumáticas. 3:55, o Galo entra em campo: foguetório e o som ensurdecedor daquele que é, do primeiro ao último verso, o hino de clube mais cantado do mundo: Nós somos do Clube Atlético Mineiro / jogamos com muita raça e amor... 4:10, começa o jogo e o limitadíssimo time do Atlético corre, mas sem muita efetividade. 4:20, bate-rebate na área do Galo e o São Caetano por pouco não marca. 4:30, gol do Criciúma contra o Coritiba em Santa Catarina. Com esta combinação de resultados, o Galo está na segunda divisão. 4:35, o Galo começa a mandar no jogo. A Massa grita e eu sinto o concreto do Mineirão tremer.
4:44, o menino Quirino, negro, pobre, formado em casa, como é de nossa tradição, escapa pela direita, dá um drible no defensor do São Caetano, e cruza. A bola vinha caindo nos pés de Alex num ângulo de quase 180o , ou seja, se ele entra chutando ela vai nas arquibancadas. Por transmissão de pensamento, os 60.000 fanáticos avisamos a Alex: mate a bola com calma, o goleiro está caindo. Alex escuta, recebe a redonda desajeitado na barriga, e enfia de dedão prá dentro do gol. O Mineirão enlouquece. O excelente time do São Caetano começa a bater cabeça, errar passes fáceis, discutir entre eles mesmos. A Massa começava a ganhar o jogo para o seu time. 4:54, termina o primeiro tempo. P., do alto dos seus 70 anos, verte umas lágrimas e me diz: ´é, Idelber, baixou o espírito do animal´. Penso comigo o que já pensei tantas vezes: sei que é só um jogo de futebol, mas por que, toda vez que presencio isso, eu arrepio todo, o peito engasga, os olhos enchem d´água? Idealização de brasileiro expatriado? Não sei, mas é bom demais.
5:15, o São Caetano pressiona. Mas Rodrigo escapa pelo meio, lança Alex na direira, e de novo de dedão Alex enfia pro fundo das redes. 2 x 0 Galo. Logo depois, mais um gol, 3 x 0, e é só festa e cantoria no Mineirão. Essa disponibilidade com que qualquer um quer abraçar qualquer um é das coisas mais lindas do futebol.
E parabéns ao Santos, que numa partida assistida por um público em 50% inferior ao do Galo, sagrou-se campeão brasileiro com toda justiça.
Escrito por Idelber Avelar às 14h32
[]
[envie esta mensagem]
Disco da Semana – Ataulfo Alves, Raízes do Samba

Dá para se escrever parte da história da cultura brasileira seguindo o mineiro que se exila no Rio. Cânone da crônica brasileira: Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade. O da memorialística: Pedro Nava. Na música popular: Ary Barroso ou Clara Nunes, Mílton Nascimento ou João Bosco.
Acho que na era do samba essa ilustre linhagem começa com Ataulfo Alves (1909-69), filho de repentista, mineiro de Miraí cariocado cedo.
Prá mim, um gênio do ritmo, da melodia e da poesia. Além de compor e cantar, Ataulfo tocava violão, cavaquinho e tamborim.
Em 1932-33, Ataulfo toma o samba que se renovara ali no Estácio (mais batucado, molejado, ‘sincopado’ que o dos anos 20) e bota em marcha, sobre aquela base rítmica, uma fábrica de pérolas. Ataulfo é dos primeiros compositores pop, fazedores de ‘sucessos’, do Brasil. Ao lado de Noel, ele traduz para o rádio a batuqueira do Estácio, logo apropriada pelo branquelão Francisco Alves.
Como em Caymmi, há trechos de Ataulfo que parecem folclore. Ataulfo tem aquela honra especial: é autor de versos que todos conhecem, até quem nunca ouviu falar nele: ‘Laranja madura/ na beira da estrada / tá bichada Zé / ou tem marimbondo no Pé’.
É um inventor de mulheres: Amélia, Aurora, Laura, cada uma de um jeito.
Compositor de talento refinado, ele passa do sambão à marchinha, do samba-canção ao samba orquestrado. Seu grande parceiro nas letras foi Mário Lago.
Falou de viver na orgia (‘Ah, seu Oscar’), de trabalhar bonitinho como mandava Vargas (‘O Bonde de São Januário’) e fez patriotadas bélicas (‘Brasil’), mas suas marcas registradas são:
1. o sambão de peito machucado (‘Vai, mas vai mesmo’, ‘Mais um samba popular’, ‘Não irei lhe buscar’, ‘Você nasceu para o mal’)
2. a nostalgia interiorana, saudade em andamento lento (‘Meus tempos de criança’)
3. a reflexão, filosófica mesmo, ou social, sobre o samba (‘Na cadência do samba’, ´Bom crioulo´)
Prá mim, estas três vertentes se encontram na sua maior composição, ‘Leva meu samba’, um batucão no melhor estilo Estácio, de levada irresistível e lindos vocais femininos dialogando com a voz de Ataulfo: ‘Leva meu samba / meu mensageiro/ este recado/ para meu amor primeiro/ Vai dizer que ela é/ a razão dos meu ais”
Com ‘Leva meu Samba’ Ataulfo estréia como cantor em 1941. E arrasa. Nos anos 30, haviam gravado composições suas Carmen Miranda, Almirante, Floriano Belham, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo. Continuou gravando e até sua morte foi imprescindível. Na véspera da morte ainda pariu outra pérola, ‘Você passa eu acho graça’. Todo mundo regravou Ataulfo, de Clara Nunes a Cássia Eller a Itamar Assumpção. Mas recomendo mesmo esta coletânea, porque o grande barato é Ataulfo lui-même.
Esta compilação da série ‘Raízes do Samba’ reúne 20 gravações na voz de Ataulfo, dos anos 40 aos 60. Inclui os clássicos citados aqui e muito mais, com excelente remasterização. Imperdível.
Escrito por Idelber Avelar às 12h10
[]
[envie esta mensagem]
O iPod e o Aleatório
Já há mais ou menos um ano e pouco não escuto CDs. Continuo comprando, mas os indispensáveis vão para o iPod, os dispensáveis vão para o gélido purgatório da torre de CDs.
O iPod é o tocador de MP3 da Apple, né? Também conversa lindamente com PCs. Eu tenho aquele de 15 giga, 4.300 canções mais ou menos. Quando eu comprei eu achei que era muito.
Para os fanáticos por música que vivem viajando prá lá e prá cá, como eu, é indispensável. Até ano passado, cada vez que eu vinha ao Brasil eu dedicava horas na arrumação da mala para escolher 100 ou 120 discos, tirar CDs e encartes das caixas, colocá-los no guarda-CDs e ao regressar devolvê-los às caixas. Invariavelmente, na viagem eu tinha vontade de ouvir um CD que tinha ficado para atrás.
Quando você está online ao passar o CD para o computador e daí ao iPod, a canção já chega ao tocador com o nome do artista, disco, etc. (encontrados no CDDB, um banco de dados online). Não esqueça de ignorar ou apagar a ridícula categoria de gênero sob a qual chega cada artista.
A coisa ia bem até que adquiri a caixona da Biscoito Fino com 15 CDs do período 1902-1925 no Brasil. O iPod já estava cheio e comecei a ter que tirar coisas para incluir os materiais da Biscoito Fino, que eu ia precisar para dar aula este semestre - por exemplo sobre a passagem do samba maxixado ao samba do Estácio, que eu explico com um pouquinho de ouvido, leitura e algo de chutômetro.
Como ando em lua de mel com a música brasileira, são as músicas de Cuba-Caribe, USA-UK, Argentina e Africa que pagam o pato (só tenho música destas regiões; música clássica eu deixo de fora do iPod). No momento, a coisa vai assim: Brasil 3.250 canções, USA-UK 602, Cuba-Caribe 430 e umas cem para a Argentina e Africa. Minha coleção de tango está sendo expulsa do iPod.
Uma das maravilhas do iPod é o ´playlist´, uma combinação de canções agrupadas como você queira. A outra maravilha é o ´shuffle´, o gozo do aleatório. Você pode pôr a maquininha para sortear tudo até o infinito, sortear uma do Caetano, sortear algo dentro de uma lista.
Esses dois comandos mudaram completamente a forma como ouço música. Ainda mais que tenho fascinação por misturega de qualquer tipo.
Para encontros românticos, minha favorita sempre foi a playlist ´vocal feminino´, que reúne as 900 e poucas canções que tenho cantadas por mulheres, de Ella a Elis.
Até que numa experiência de uns meses atrás apareceu PJ Harvey esganiçando, berrando ´Happy and Bleeding´ (sim, uma canção sobre sangramento.....). Para quem nunca ouviu, PJ Harvey é algo assim como Janis Joplin + Nick Cave. Maravilhoso, mas não é o que você quer em certos momentos.
Não atrapalhou nada, e deu-se muita risada, mas valeu como aviso para tratar as ´playlists´ do iPod com muita atenção....
Escrito por Idelber Avelar às 15h56
[]
[envie esta mensagem]
McCensura
Eu não gosto da comida do McDonald´s, mas sou pai de duas pessoas que adoram, então quem sou eu para censurar: uma vez por semana a gente dá uma passadinha lá.
Ontem o McDonald´s da Afonso Pena, BH, tinha uma novidade: McInternet!
Aproveitei que só havia mesinha livre com dois lugares, deixei Alexandre e Laura comendo e vim dar uma olhada nos comentários do Biscoito, olhar outros blogs, surfar.
Chamo o Biscoito e recebo a janelinha: Acesso negado! McInternet identificou conteúdo impróprio neste site!
Pensei comigo: isso é que dá escrever palavrão no blog. Vou ter mais cuidado no futuro porque não quero que ninguém fique impedido de acessar o Biscoito no McDonald´s.
Aí pensei, bom, vou acessar o Liberal Libertino Libertário. Não entrou, mesma janelinha. Tento o Smart. Entra, mas quando abro a primeira caixa de comentários, de novo a janelinha de censura. Tento o blog do Galvão. Mesma McIdentificação de conteúdo impróprio.
Saio xingando, putz, será que não há um blogueiro brasileiro que tenha conteúdo McApropriado? Como será que funcionam esses filtros hein?
Sou, como disse, pai, e as pérolas têm 8 e 5 anos. Quando vejo essas coisas não tenho dúvida. Prefiro que não haja filtro nenhum em lugar nenhum. Deixa a meninada achar o que der conta quando for a hora. Nada do que está na internet deixa de existir no mundo por causa dos filtros. Nada do que é humano me é estranho, acho que foi Nietzsche mesmo que falou isso.
Perguntas deliciosas:
Alexandre, 8 anos: Bloquearam a sua blogagem, pai?
Laura, 5 anos: Já blogou hoje, pai?
Pronto, minha filha. Já bloguei.
Escrito por Idelber Avelar às 14h23
[]
[envie esta mensagem]
Punindo as Pororocas Pátrias III
(terceiro e último post sobre a lei 1676/1999)
Depois de publicar o post abaixo, sobre a lei Aldo Rebelo, que quer criminalizar as pororocas pátrias com as de outros idiomas, tive várias surpresas agradáveis. O Nemo já havia feito um post sobre o assunto e o Alexandre havia feito outro. Ambos no mesmo espírito de repúdio à tutela estatal sobre a língua. Na caixa de comentários do post mais recente do Alexandre sobre isso, há uma conversa interessante também.
Esclarecimentos
Óbvio que como qualquer falante da língua, tenho minhas opiniões sobre estrangeirismos particulares. A questão não é essa, e sim passar um cheque em branco para que um Komintern decida punições aos que não se adequarem à norma determinada. Invariavelmente, todas as vezes que o estado se propôs regular a língua, as consequências foram nefastas e se fizeram sentir muito além da língua.
Exemplos práticos
´Printar´ e ´startar´ eu acho que não sobrevivem e não precisam do empurrãozinho do Rebelo.
´Deletar´ eu já acho bonitinho. Minha prima M., de 14 anos, me dizia anteontem, logo depois de eu ter feito o post: ´Deletei Paulinho da minha vida´. Eu caí na gargalhada por causa da coincidência. Expliquei a polêmica a ela. M., inteligente que é, veio com a resposta perfeita: ´esses políticos não tem mais o que fazer não?´ ´Deletar´ eu acho que sobrevive com lei ou sem lei. Deletar alguém não é apagar, excluir, eliminar nem descartar. Deletar é deletar.
´Delivery´ funciona no Brasil como marca de status. Essa marca de status associada à língua inglesa não vai acabar da noite pro dia, e muito menos com alguma lei. Se o Sr. Aldo Rebelo quer fazer algo para estancá-la, que tal convencer o governo do qual ele é líder a parar de enviar quase 5% do nosso PIB aos banqueiros de língua inglesa?
Fla-Flu, Gre-Nal, Atle-Tiba, Galo x Cruzeiro são clássicos. Guarani versus Ponte Preta é derby, a palavra que se usava no começo do século. No entanto, a brasilidade e a comunicação em Campinas continuam muito bem, obrigado.
Desafio mantido
Fica mantido o desafio: eu faço uma fogueirinha de São João com meus diplomas de licenciatura, de mestrado e de doutorado – diplomas que não me fazem melhor que ninguém, claro, mas que me são caros posto que conquistados com esforço – se o Sr. Aldo Rebelo ou algum apoiador desta lei me apontar um único lingüista com produção acadêmica que esteja disposto a defendê-la.
Genug!
Prometo que é o último post sobre o assunto até que essa palhaçada vire lei, o que, dado o calendário generoso do nosso Congresso, não poderá acontecer antes do Carnaval. Por culpa dessa lei quase fico sem ingresso para a partida de ludopédio entre Atlético-MG e São Caetano.
Trilha sonora: ´Samba do Approach´, Zeca Baleiro
Escrito por Idelber Avelar às 15h41
[]
[envie esta mensagem]
PPP – Policiando o Português da Patuléia I
O projeto de lei 1676/1999, de autoria do deputado Aldo Rebelo, do PC do B, determina que:
Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira, ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... será considerado lesivo ao patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei. . . . Toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira .... ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... terá que ser substituída por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data de registro da ocorrência.
Quem quiser ler esse cômico projeto por inteiro, pode fazê-lo aqui. Quem quiser acompanhar toda a história da palhaçada, incluindo-se os pareceres favoráveis em comissões da Câmara e Senado, pode fazê-lo aqui. Sim, isso mesmo: Aldo Rebelo quer que a lei puna o uso de ´deletar´ ou ´delivery´. Se acontecer, cadeia ou multa.
Onde é que essa infelicidade albanesa foi buscar apoio para o seu projeto? Em grupos xenófobos de fascistóides da língua, como esse inacreditável Movimento Nacional de Defesa da Língua Portuguesa, que no seu site nos insta a defender a última flor do Lácio com citações de brasileiros ilustres como Albert Camus, Delacroix e Diderot. Depois, eles dizem que expressões que nem existem em inglês como sauce garlic (será que eles queriam dizer garlic sauce?) ´ameaçam´ a ´existência´ da língua portuguesa!!! Alô amigos brasileiros do exterior, alô Leila, Fernando, Felicia, Sérgio, regozijo-me informar-lhes que o sauce garlic (sic) ainda não destruiu a língua de Camões! E não o fará, porque o valente deputado a protege.
Ilmo. Deputado Aldo Rebelo, a ignorância de Vossa Excelência nesta matéria é tão vasta, e de tão mastodôntica profundidade, que eu não sei por onde começar. Será que o Sr não leu nem uma linha de lingüística do século XX além da brochurinha do Stalin (sim, leitores do Biscoito, Stalin escreveu um tratadinho de `lingüística´ parecido com a lei do deputado...)? Será que o Sr já ouviu falar de sociolingüística, filologia, história do idioma? Será que não leu o suficiente nem mesmo para saber que a) sobre a língua viva não se legisla; b) nenhum idioma jamais morreu por adotar palavras estrangeiras, em excesso ou não; c) a língua portuguesa vai muito bem, obrigado, e a ´invasão´ de termos do inglês não afeta em nada a comunicação com o ´homem simples do campo´, a quem o Sr demagogicamente apela, sem que ele jamais lhe tenha pedido proteção? Será que o Sr não sabe que se o Guga se tornou um tenista de renome ´os homens simples do campo´ que se interessam pelo assunto já aprenderam o que é um tie-break e que é assim que funciona a língua? Será que o Sr. não sabe que a língua espanhola não perdeu nada por dizer ´off-side´ ao invés de impedimento? Será que o fascismozinho estalinóide do Sr. não entende que é absolutamente inaceitável, além de ridículo e improdutivo, instaurar uma ´alfândega lexical´ (termo do infeliz deputado) para legislar sobre como vamos adotar palavras estrangeiras? Vá burocratizar a língua lá na casa do caralho, no meu texto não. Fuck off.
O deputado se apresenta como porta-voz de um ´clamor´ popular em favor da defesa da língua portuguesa. Depois ele diz que seu projeto é apoiado por inúmeros ´professores, linguistas, etc.´ Um dos maiores linguistas do Brasil, meu amigo Mário Perini, já falou o necessário: ´O projeto do Aldo Rebelo ... não vai ter utilidade nenhuma como lei.´ O linguista John R. Schmitz, da UNICAMP, já desmontou toda a bobajada com vários textos. O linguista José Luiz Fiorin, da USP, já demonstrou que ´a concepção de língua sobre a qual se apóia o projeto é equivocada. Os problemas lingüísticos que identifica não são reais.´
Eu desafio o deputado a apresentar o nome de um só linguista brasileiro, com produção acadêmica, que seja favorável à sua escrotíssima idéia de punir o uso de palavras estrangeiras e de criar um Komintern da gramática.
Escrito por Idelber Avelar às 13h05
[]
[envie esta mensagem]
PPP – Policiando o Português da Patuléia II
Se essa infeliz idéia de estalinista recalcado virar lei, óbvio que é mais uma para não ser cumprida, porque a língua não obedece burocratas de plantão. Agora, se alguém for punido por violar esta lei, assumo aqui o compromisso de transformar este Biscoito num espaço permanente de violação e desrespeito à Lei Aldo Rebelo.
E tem mais deputado, vou gastar até minha última gota de saliva para chamar todos blogueiros que conheço, vou lá no Alexandre, no Nemo, na Cora, no Galvão, no Marcus, no Smart, aposto que muitos vão topar chamar mais gente, e faremos uma permanente desobediência civil lingüística. Se charmarmos o Gerald então, o Sr. vai ver a confusão que nós vamos armar na cabeça do Sr.
Mande seu exército-zinho de defensores da mediocridade monolíngüe tentar resolver problemas que realmente existem. Como por exemplo o uso de vírgulas. Nunca lhe ocorreu policiar o uso de vírgulas? E a obrigadoriedade da mesóclise, menina dos olhos de um ou dois gramáticos bolorentos aliados ao Sr.? O sr. sabe o que é mesóclise?
Será que o Sr. tem idéia, tem noção, de que se em algum momento da história do Latim, ou da história da vulgata, ou da história da língua portuguesa, algum aprendiz-zinho de policial lingüístico tivesse tido a idéia do Sr. (e tivesse tido sucesso executando-a, o que é impossivel, claro), não existiria nem mesmo esse tutamélico arremedo de idioleto farrapento de língua portuguesa no qual o Sr. tenta expressar a sua imensamente atrasada visão de mundo e de nacionalidade? Não se atreva, por favor, deputado, a justificar essa polícia da língua citando Machado de Assis. Ele revirou no túmulo, eu vi. O Sr. não leu uma linha de Machado de Assis, e se leu não entendeu. Releia `Um Homem Célebre`.
Delete esta delivery fracassada, deputado. O Sr. está se perdendo no chemin des écoliers, ou seja, yéndose por las ramas. Que Weltanschauung mais atrasada! ¡Qué quilombo, diputado! O Sr. merece ser condenado a ficar o resto da sua existência lendo as obras completas de Lukäcs em húngaro, enquanto procura galicismos num DVD de Roberto Leal.
Semana de desobediência civil contra a lei Aldo Rebelo, galera. Mensagens cheias de misturas, anglicismos, hispanismos, germanismos, galicismos e palavras estrangeiras serão especialmente bem-vindas.
Escrito por Idelber Avelar às 13h02
[]
[envie esta mensagem]
Reze pelo Galo
Matemática do desespero no Campeonato Brasileiro: Grêmio e Guarani já rebaixados. Vitória-BA, Criciúma, Botafogo, Galo e Flamengo lutando para escapar de mais duas vagas para a degola. Os dois primeiros afogando-se porque dependem de ganhar seus jogos e torcer por tropeços de adversários, o Botafogo numa dificílima, porque só depende de si, mas tem que bater o poderoso vice-líder Atlético-PR na Arena da Baixada (se não, terá que ligar o radinho e torcer).
O Galo depende de vencer o São Caetano no Gigante da Pampulha neste domingo. Se ganhar, segue na série A. Se perder ou empatar, dificilmente escapa da Série B – o poço assustador de onde subir é muito duro.
O Galo é a maior paixão da maioria do povo pobre de Minas Gerais: primeiro campeão da cidade (1914), primeiro e mais freqüente campeão mineiro (38 vezes), primeiro campeão brasileiro (1971), primeiro brasileiro a excursionar pela Europa e encantar (1950), primeiro campeão dos campeões estaduais do Brasil (1936), primeiro e único time do mundo a vencer a Seleção Brasileira de Futebol (a de Pelé em 1969), primeiro campeão da Copa Sul-Americana Conmebol (1992), time que mais vezes chegou às semifinais do Campeonato Brasileiro (14), único entre os grandes times brasileiros do Sudeste a incluir negros e mulatos já na sua fundação (1908).
Mais do que por todas essas coisas, o Galo é conhecido pelo poder e paixão da sua torcida, e pelo seu hino, que já começa duas oitavas acima de qualquer outro hino de clube.
Claro, 70.000 fanáticos vão lotar o Mineirão este domingo, inclusive este blogueiro. Haja coração.
Figuinha, flores para Iemanjá, velinha prá Santo Antônio, qualquer coisa está valendo agora.
Se alguém tiver uma opinião sobre se eu devo usar a camisa No. 1 (listras brancas e negras verticais) ou a camisa No.2 (toda branca) deixe um alô por favor.
Série coisas horríveis do Brasil II - Ser obrigado a ouvir o Galvão Bueno se quiser assistir futebol ao vivo. Não que ele não seja bom locutor. Ele o é sim. Mas qualquer monopólio é insuportável e gera arrogância. Se o cara já é arrogante de entrada, a coisa fica dura de lascar.
Série coisas maravilhosas do Brasil II - Poder ver a Soninha esbanjar inteligência, lucidez, visão renovadora do futebol, charme e tudo mais na televisão (ESPN Brasil). Parabéns vereadora. Gente como você sustenta meu restinho de esperança no PT.
Escrito por Idelber Avelar às 13h07
[]
[envie esta mensagem]
Disco da semana – Sepultura, Roots (1996)

É o maior disco de heavy metal já feito no Brasil. Se você conhece alguém que ainda acha que metal é tudo a mesma coisa, barulheira sem sentido, dirija a atenção do seu interlocutor a este disco.
Em toda cidade brasileira a oferta de música é variada. Mas certos movimentos, mesmo nacionais, são associados a certas cidades: o punk e o hip hop com São Paulo, o funk e o pagode com o Rio, os blocos afro com Salvador, o reggae com São Luís e Salvador. Belo Horizonte é a capital latino-americana do heavy metal.
Por volta de 1985-86, Belo Horizonte – até então conhecida pela música jazzística do Clube da Esquina ou pela viola acústica de trovadores do interior – começou a ser sacudida por uma legião de jovens cabeludos (a maioria de classe trabalhadora) vestindo camisetas negras. Surgiu o primeiro selo brasileiro especializado em metal, a Cogumelo Records. Na época, entre as muitas bandas, destacavam-se Overdose, Sarcófago e Sepultura.
Esta última cresceu ao ponto de fazer de seus integrantes os músicos brasileiros de mais sucesso no exterior em todos os tempos – sim, mais que Tom Jobim. De Jacarta na Indonésia a Oaxaca no México, se você estiver entre jovens, pode mencionar o Sepultura.
Eles começaram com Bestial Devastation (1985) e Morbid Visions (1986), ainda ancorados no satanismo tradicional do death metal. As influências da banda eram Kreator, Slayer, Sodom. Em Schizophrenia (1987) a banda consolida a formação que duraria dez anos: os irmãos Max e Igor Cavalera (respectivamente, guitarra/vocal e bateria), Paulo Jr. (baixo) e Andréas Kisser, guitarrista treinado no blues e no heavy metal tradicional. Beneath the Remains (1989) levou o prêmio de disco metal do ano na Europa. Com Arise (1991) chegaram a um nível de profissionalização invejável. Em Chaos A.D. (1993) eles viajaram aos territórios ocupados da Palestina para gravar o vídeo de ´Territory´, que ganhou o prêmio daquele ano na MTV e é meu clip favorito de todos os tempos. Com Roots (1996) eles levam o heavy metal a outro nível de sofisticação.
Sem abandonar a pegada das guitarras e pauleira 4/4 da bateria de Igor, eles incorporam maracatu, samba, música indígena. Viajam à reserva Xavante, no Mato Grosso e estabelecem com eles uma relação respeituosa, horizontal, que dura até hoje. Incorporam, no final ou no começo das canções, cantos rituais Xavante. Trazem Carlinhos Brown e seus tambores para dialogar polirritmicamente com a bateria de Igor. Alternam a distorção total nas guitarras com belos violões acústicos tocados por Andreas. Em ´Ratamahatta´ homenageiam uma galeria de anti-heróis nacionais: Zé do Caixão, Zumbi, Lampião. Igor se consolida como um super baterista: pegada forte e seca, contratempos surpreendentes, uso de uma série de recursos de outros gêneros. Se você tiver paciência de ouvir o disco todo, será premiado ao final com uma ´faixa escondida´ (´hidden track´) de 13 minutos, soturna, estranha, enigmática, cheia de silêncios.
Oriundos de um movimento que odiava a música nacional e que se orgulhava de ser de ´lugar nenhum´, o Sepultura primeiro conquista o planeta, depois faz um disco reconciliando-se com suas raízes. Roots é uma profunda meditação sobre o Brasil, indispensável para qualquer um que queira entender a relação entre a música e a nacionalidade no país.
Há vinte anos atrás, no dia 04 de dezembro de 1984, o Sepultura fazia seu primeiro show em Belo Horizonte. Neste momento, 11/12/04, eles estão viajando de Stuttgart, na Alemanha, para Copenhague, na Dinamarca, em outra super turnê. Congrats, folks. You did it your own way. I love you.
PS: se você estiver interessado em saber mais sobre o Sepultura, pode ler o trabalho que eu apresentei no último congresso da Associação Internacional para Estudos da Música Popular (IASMP), que ocorreu no Rio de Janeiro. O artigo está disponível online
Escrito por Idelber Avelar às 13h59
[]
[envie esta mensagem]
Coisas maravilhosas e horríveis do Brasil que eu já tinha esquecido:
Plagiando descaradamente uma idéia já blogada pelo Nemo, vou fazer de vez em quando, ao longo destes 40 dias em que estarei em BH, minha própria listinha das coisas maravilhosas e horríveis do Brasil que eu já tinha esquecido. Na verdade, ´esquecido´ não é bem a palavra, porque passo tanto tempo por ano aqui (uns 130 dias ao todo), que está tudo sempre bem presente na memória. Mas claro que o reencontro com a coisa sempre produz impacto.
Coisas maravilhosas:
1. O charme incomparável da mulher que pára o carro ao lado do meu no semáforo, baixa o vidro elétrico da janela do passageiro e, consciente de que eu estou olhando, acende um cigarro de um jeito blasé, tira os óculos escuros e me dá um sorriso e uma piscadela. Eta-le-lê, eis aí uma cena impensável em gringolândia.
2. Poder ir a um restaurante e beber, comer, voltar a beber, fumar, voltar a comer, passar para a sobremesa, voltar à cervejinha, e refazer o percurso como eu quiser, sem que venha um garçom jogar a conta na minha cara ou me perguntar ´Are you finished, sir´?
Coisas horríveis:
1. Ter que fazer baliza morro acima, na chuva, num carro 1.0 com quatro passageiros dentro, num espaço exíguo e com um fariseu buzinando atrás de mim. Hehehe. Leitores cariocas, paulistas, baianos: se isso é difícil na terra de vocês, em Belo Horizonte é trinta vezes pior (sim, o trânsito aqui é pior que o de São Paulo). Das muitas cidades que já visitei, só Nova York, entre a 14 e a 42, tem um trânsito de horror comparável ao de BH. Com a diferença que em BH é tudo morro, todos têm que ir ao centro (que é um funil pensado para uma cidade de 200 mil, que agora tem 3 milhões) e os motoristas dirigem como se estivessem fugindo do apocalipse.
2. Ter que ouvir os intoleráveis ´só podia ser mulher´, ´só podia ser preto´ e ´só podia ser nordestino´. O segundo insulto está ficando cada vez menos comum (menos comum do que era, não quer dizer que tenha desaparecido), mas o primeiro e o terceiro pululam em todas as classes sociais. A próxima vez que eu ouvir algum dos três, sei não...
PS: A resenha discográfica desta semana vai rolar amanhã. Não é um disco obscuro, mas é, na minha opinião, um obra-prima pouquíssimo escutada e compreendida. Não deixem de visitar.
Escrito por Idelber Avelar às 18h19
[]
[envie esta mensagem]
Ética da blogagem I
(em duas partes, cortesia do miserável limite de caracteres por post no UOL)
Este Biscoito é calouro, mas ouvi e li o suficiente na blogosfera para ter uma opinião sobre a ética da blogagem. Para começar, questão-zinha terminológica: eu me filio à corrente que diferencia radicalmente a ética da moral. Não confundir as duas coisas: a moral é um discurso prescritivo, a ética é a formulação da relação da gente com o que a gente faz. O que segue, então, não pretende ser receita para ninguém. É só uma reflexão sobre a minha prática.
Ética da divulgação
Depois de armar o seu blog, o blogueiro iniciante sai sedento em busca de leitores. Visite a sala de divulgação dos blogs do UOL e você vai ver a solidão e miséria humanas em pessoa. É super normal querer chamar leitores. Ninguém escreve para não ser lido. Neste Biscoito, de 25% a 30% dos leitores chegam via comentários que fiz em outros blogs. No geral, tenho observado o seguinte: eu me animo a clicar na URL de alguém que comenta em outros blogs quando o comentário me pareceu inteligente e pertinente. Jamais cliquei na URL de alguém que visitou o blog do outro só para dizer, ´oi gente, visitem meu blog por favor´. É irritante, interrompe a conversa. Se você quer divulgar seu blog, eu recomendo duas coisas: além de comentar blogs respeitando o tema, mande emails individuais. Jamais arme uma lista de spam e saia por aí spamming everybody. Se possível, envie um link específico a um post que você acha que a pessoa vai gostar. Não há nada de mais em desejar um leitor específico. O maior escritor uruguaio de todos os tempos, Felisberto Hernández (ok, também tem o Onetti), escrevia para uma leitora que ele desejava. Quando escrevi a história da minha relação com o PT, quis muito que o Clóvis Rossi da Folha (que não é amigo meu) lesse o post. Sei que o cara é ocupadíssimo, e sei que colunista da Folha recebe centenas de emails por dia. Escrevi um email de duas linhas com um link. Ele veio, leu, respondeu o email, gentil. Acho que se eu tivesse mandado um spam para 50 pessoas, e ele no meio, ele provavelmente não teria lido.
Ética da linkagem
Chego atrasado a esta discussão, mas vou dar pitaco. Houve uma conversa entre o Alexandre, que se pauta por linkar todos aqueles que o linkam, e o Smart, que se dá o direito de linkar somente os blogs de que gosta. O que acho? Estou de acordo com os dois (hehehe, sou radical de esquerda mas sou mineiro...). Mas, agora no sério, acho que os dois estão certos. Alexandre o faz como gesto de gentileza de um überblogueiro que sabe que pode ajudar os que estão começando - e mesmo assim vira e mexa leva tamancada. Smart se pauta pelo princípio, super razoável, de que linkar um blog é endossá-lo, não no sentido de que você endossa tudo o que cara diz, mas de que de certa maneira você está irmanando-se àquele blog (o que só aumenta minha honra de estar linkado no Smart Shade of Blue). A ética deste Biscoito? Apesar de ter crescido muito, meu público ainda não é suficiente para que meus links alterem muito o fluxo de visitas de ninguém (situação diferente tanto da de Alexandre como da de Smart, blogueiros experientes). Os links que você vê à esquerda são blogs ou sites que eu leio e gosto. Adoro ser linkado, mas não prometo reciprocidade. Há três semanas revirei a blogosfera literária brasileira e conheci mais de 100 escritores de ficção e poesia. Se eu linkasse todos, não teria a oportunidade de sugerir, com meu link, que acho Sara Fazib – a quem não conheço e nunca vi – uma das maiores poetas contemporâneas brasileiras. Mas não descarto a possibilidade de, num futuro próximo, quando as visitas diárias a este Biscoito passarem dos três para os quatro dígitos (heheh, sonha mineiro), adotar a ética do Alexandre, que é bacana e gentil – nesse caso eu encontraria outra forma de sugerir meus endossos.
Trilha sonora: ´Particle man´, They Might be Giants
Escrito por Idelber Avelar às 14h06
[]
[envie esta mensagem]
Ética da blogagem II
Ética da crítica
Como crítico literário, sigo duas pautas. Jamais tomo cervejinha ou cafezinho com autores de ficção ou poesia a não ser que: 1) eu já tenha escrito e publicado sobre eles; OU 2) não tenha planos de jamais fazê-lo. Uma das coisas terríveis do mundo literário jovem é que, na ânsia normal de construir uma rede, as pessoas formam panelinhas que lhe tiram completamente a independência de criticar. Por exemplo: depois de escrever bastante sobre o escritor argentino Ricardo Piglia, acabei ficando amigo do cara, porque sempre sou chamado a dar conferências sobre ele. Quando o Ricardo começou a recauchutar textos e republicá-los com outros títulos como se fossem textos novos, um jornal me perguntou sobre o assunto, e eu disse: ´não acho legal essa coisa do Ricardo ficar double-dipping´ (passar o chip duas vezes na salsa; na gíria literária, republicar o já publicado para aumentar uma linha no currículo). Se fosse outro escritor, eu poderia ignorar a pergunta, mas você não pode ser economista especialista em economia brasileira e não ter uma opinião sobre a política do Palocci. O Ricardo, que é muito elegante, aceitou a crítica. Mas o Ricardo é considerado o maior escritor argentino vivo, e não precisa de favores meus. No caso de um escritor iniciante, uma palavra negativa de um crítico pode ser fatal, mesmo quando não tire leitor nenhum da pessoa. Se, no desejo natural de construir uma rede de apoio, você perder a liberdade de blogar como quiser, dizer o que quiser, é o começo do fim.
Ética da assinatura
Este Biscoito é feito por alguém com nome e sobrenome, tudo às claras. Tenho o maior respeito do mundo por quem usa pseudônimo, qualquer que seja o motivo. Alguns dos blogs mais interessantes e subversivos da blogosfera gringa só puderam sobreviver porque foram feitos com pseudônimos. O blogueiro que eu mais admiro no planeta, o Rude Pundit, usa um pseudônimo porque ele detona, pornograficamente, os donos do poder nos EUA. Se não usasse pseudônimo, já o teriam sufocado com emails de ódio em massa ou ameaças de morte. Agora, o que não dá é você ter um blog no seu nome, e sair por aí usando um pseudônimo a cada hora para atacar as pessoas no blog delas. Todo blogueiro que se preze aceita críticas de boa fé. Mas se você gosta de polemizar, encare e se apresente, mesmo que seja com o seu pseudônimo de todos os dias.
Para sublinhar: isto aqui é uma tentativa de formular uma ética, não uma moral. O autor é novato na blogosfera em português, mas passou 2004 mergulhado nos blogs de língua inglesa. Lá, como cá, tem de tudo. E isto aqui é só uma contribuição à discussão.
Trilha sonora: ´Mesa de bar´, Alcione e Ed Motta.
Escrito por Idelber Avelar às 13h53
[]
[envie esta mensagem]
Miniglossário da blogosfera progressista gringa
(A blogosfera foi fundamental na campanha de John Kerry. Com ela, perdemos por 2% dos votos; sem ela, a corja nos teria massacrado. Sem estes blogs, os 56 milhões de eleitores que tentaram todo o possível teríamos nos sentido bem mais sós)
DailyKos: fundado por um salvadorenho naturalizado gringo, o DailyKos foi o mega-blog de mobilização dos democratas. Continua forte. Projeto colaborativo: você visita e lê sem se inscrever, mas inscrevendo-se você pode fazer suas próprias entradas num diário, que podem ser linkadas internamente e selecionadas pelo Kos para a página inicial do dia. Durante a campanha de Kerry, as visitas diárias se contavam pelos milhões. O número de inscritos escrevendo, pelas dezenas de milhares. Todas as informações importantes foram trocadas lá em tempo real. Há sempre centenas de pessoas conversando política nos open threads. Visite, no Daily Kos, a enciclopédia colaborativa.
Eschaton: blog fundado pelo economista e überblogueiro Atrios, funciona como open threads de temas lançados por ele. Respeitadíssimo site. Atrios é como Borges, lê muitíssimo e escreve pouco. O trabalho do site é linkar e armar open threads. Teve importante papel em vigiar as cagadas da mídia, que é sempre pró-Bush ou está aterrorizada de medo de ser rotulada pró-liberal.
Left Coaster e Talk Left: dois blogs que apresentam notícias que você jamais verá na grande mídia americana. Todas as citações e fontes são checadas antes da linkagem. Duas importantes fontes de notícias para os progressistas americanos.
Rude Pundit: blog de textos sem caixas de comentários. Ao contrário dos que se escondem num pseudônimo para ser hipócritas, o Rude Pundit permanece anônimo para poder continuar fazendo o que se propõe: detonar os diretistas com uma prosa cortante, bem escrita, informada e cheia de obscenidades deliciosas. Blog porrada pura. Meu blogueiro favorito.
Talkingpointsmemo: blog de Josh Marshall, colunista político de uma série de publicações importantes. Também um blog de textos, mais formativo e de opinião do que propriamente de informação.
Michael Bérubé: para mim, o mais inteligente dos blogueiros políticos norte-americanos. Satirista mor. Professor de estudos culturais, Bérubé milita há tempos no Partido Democrata e foi figura chave na defesa dos progressistas nas ´guerras culturais´ dos anos 90. Seu blog saltou de umas dezenas a umas milhares de visitas diárias quando ele pegou seu laptop, infiltrou-se na convenção republicana, e fez posts satíricos legendários.
Wonkette: não é dos meus favoritos, mas nenhum miniglossário estaria completo sem ela. Faz o gênero sátira política erotizada, com constante referência à grande mídia. Foi das blogueiras mais focalizadas pela mídia quando esta descobriu a blogosfera. Emerging Democratic Majority: blog do cientista político especializado em pesquisas Ruy Teixeira. Se você quer uma análise detalhada das pesquisas, incluindo sua sistemática manipulação em favor de Bush, não deixe de visitá-lo.
Leitor: quando passar, deixe aqui uma palavrinha sobre como viveu a eleição americana, no Brasil ou onde for.
Escrito por Idelber Avelar às 15h35
[]
[envie esta mensagem]
Agora blogando sério
Já em BH e ainda com a laptop estragada, me deparo estupefato com os números: este humilde blog há alguns dias vem tendo média de uma centena de visitas diárias. Pouco, se comparado aos Alexandres, às Coras, aos Nemos. Mas uma multidão para quem começou este Biscoito há menos de dois meses, como um despejo de frustrações pessoais com a cobertura da campanha de John Kerry na imprensa brasileira. Continuem a visitar, pois pois. O menu é política, literatura, música e um pouquinho de futebol. Quando meu Galo voltar a ser um time decente, muito futebol.
As dez maiores obras da literatura universal Está rolando até o dia 12 lá no Alexandre a votação dos dez melhores livros de literatura de todos os tempos. Essa votação gerou a idéia de um clube de leitura na blogosfera, onde discutiríamos, num dia determinado, um grande livro. Tomara que vá prá frente. O meu voto? 1. Dom Quixote (Cervantes), 2. Os Irmãos Karamazov (Dostoiévski), 3. Ulisses (Joyce), 4. Em Busca do Tempo Perdido (Proust), 5. Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa), 6. Contos completos (Jorge Luis Borges), 7. Contos completos (Edgar Allan Poe), 8. O Homem sem Qualidades (Musil), 9. O Processo (Kafka), 10. Hamlet (Shakespeare)
Deutsche Welle International Weblog Awards 2004 Quem ganhou o primeiro lugar do júri popular deste concurso internacional de blogs foi o super simpático brasileiro Nemo Nox, do pioneiríssimo Por um Punhado de Pixels. Parabéns Nemo!
Scorcese delira sobre o blues
O canal GNT começa a exibir o documentário de Martin Scorcese sobre o blues. Não deixe de assistir. Não porque seja bom, mas porque revela os delírios do diretor americano. O primeiro episódio é uma pérola de simplismo: toma um jovem músico negro do Mississippi e o leva à Africa para ´ver´ as ´raízes´ e a ´alma´ do blues, como se a Africa tivesse parado no tempo. Que o blues tem raízes na música pentatônica de Mali, é fato. Que você possa chegar a uma metrópole pós-moderna africana e, achando que está em 1750, encontrar a ´verdadeira origem do blues´ na híbrida música de lá, é delírio. Mas as cenas de John Lee Hooker valem o pé no saco.
O que é um link? Textos sempre remeteram a outros textos desde que o mundo é mundo. Graças à internet e ao código HTML, essa remissão hoje tem sua forma mais acabada no link, aquela inserção do texto do outro no seu sem citá-lo, mas convidando-o a puxar outra janelinha onde os dois textos co-existam, como amigos. Nessa segundona braba, pratique um ato aleatório de amizade. Linque o seu blogueiro favorito, ou algum que você goste muito.
Próximos temas aqui no Biscoito:
- A ética da blogagem
- O jornalismo e a blogosfera
- Os melhores discos brasileiros da história
- A blogosfera na campanha de John Kerry
- A luta contra essas pragas que são as religiões
- O governo brasileiro e a censura ao cinema
PS: por alguma razão, a porra do template do UOL não está me deixando formatar, lincar, colocar negrito, etc. a não ser depois de muita luta. Além da laptop estragada, mais essa. Tenho que me mudar para o blogspot ou adquirir um servidor meu urgente. Sugestões?
Escrito por Idelber Avelar às 12h12
[]
[envie esta mensagem]
 
New Orleans Belo Horizonte
New Orleans, com suas ruelas antigas, casarões e sobrados, becos, clubes de jazz, vibrante cultura negra, incomparáveis restaurantes, lago maravilhoso, bandas de música pela rua com gente dançando atrás (secondlining) e o sorriso tranquilo da maioria dos nativos da cidade. Quem veio a este país e não passou por New Orleans, perdeu a segunda melhor cidade.
Belo Horizonte, com seus morros, a serra em volta, as cachoeiras, a vida noturna agitada e cheia de recovecos, a cara recatada de cidade que tem muito mas não se oferece fácil, os milhares de bares, a música sempre com alguma coisinha diferente na harmonia, a hospitalidade e a mistura singular de província com metrópole. Se foi ao Brasil e não conheceu Minas, não viu o "cimento" do país, como disse uma vez meu amigo carioca Italo Moriconi.
O que eu sou eu devo a essas duas cidades. De lá prá cá. Chegou a hora do lá. Contagem regressiva para abraços nos filhos: 2 dias.
Alôs que algum dia chegarão
Se um modesto professor universitário já recebe pilhas incontroláveis de emails, eu imagino o que será a caixa de um colunista da Folha de São Paulo. Mesmo assim, ao longo desse ano, aos meus incontáveis comentários, reclamações, elogios e sugestões, nunca deixaram de ser gentis e responder: Clóvis Rossi, Eliane Castanhêde, Mário Magalhães, Soninha, Luiz Nassif, José Geraldo Couto. Muito obrigado. Eu vivo reclamando, mas a Folha prá mim ainda é, me desculpem meus amigos cariocas, o melhor jornal do Brasil. Exceto quando colocam sionistas radicais pró-Bush para comentar eleições americanas.
Mulher de um Homem Só
Li o romance do überblogueiro Alexandre Cruz Almeida. Narradora mulher muito convincente. Relato envolvente, que cria uma identificação entre o leitor e uma protagonista que vai se transformando num farrapo humano. Disponível para download lá no site do Alexandre o Libertino Liberal Libertário. Recomendo mesmo.
Novidades Literárias e Musicais na Capitu:
Marcelino Freire resenha emocionado o que parece ser um belo disco, o primeiro solo de Sérgio Cassiano, do Mestre Ambrósio. A julgar pela obra do grupo, deve ser um discaço. Chegando em BH vou conferir.
Minha conterrânea e colega Maria Esther Maciel está lançando seu O Livro da Zenóbia, coleção de reflexões, relatos, prosas poéticas. Esther também é poeta, crítica de cinema e professora do melhor curso de Letras do Brasil, o da UFMG. Mais uma coisa prá conferir em BH. Como se faltasse!
Escrito por Idelber Avelar às 23h37
[]
[envie esta mensagem]
Disco da Semana – Tom Zé, Todos os Olhos (1973)
Blogueiro Convidado: Christopher Dunn
(esta semana a resenha fica por conta de meu brother Christopher Dunn. Diga lá Chris!)
Batizado o “pai de invenção” pela revista Rolling Stone, Tom Zé é hoje amplamente reconhecido e celebrado nacional e internacionalmente como um grande inovador da música popular. Não foi sempre assim. Em meados dos anos 80, depois de lançar uma série de discos brilhantes e mal-sucedidos, Tom Zé quase chegou ao fim da linha: sem contrato para gravar e tocando ocasionalmente em bares pequenos e nas universidades do interior paulistano, quase largou a carreira de músico para voltar a sua cidade natal no sertão baiano. Foi nessa época que o músico-produtor David Byrne procurou o baiano com a proposta de lançar uma coletânea de suas canções-ironicamente chamadas de “massive hits-- todas gravadas nos anos 70. Lançado em 1990 pelo selo Luaka Bop, “The Best of Tom Zé foi um sucesso crítico entre o cognoscenti musical da Europa e Estados Unidos.
Uma boa parte desta coletânea saiu do disco Todos os olhos, lançado em 1973 e citado pelo próprio artista como um divisor de águas na sua carreira. Foi o disco em que ele se afastou definitivamente das paradas de sucesso-as quais frequentava durante a época da Tropicália-- e assumiu uma postura mais experimental. Foi o momento em que Tom Zé “caiu no ostracismo” como ele costuma dizer. Hoje o disco talvez seja mais conhecido pela capa: há alguns anos foi eleita por um grupo de críticos e músicos entre as cinco melhores capas de discos brasileiros de todos os tempos. Criada pelo poeta concreto Décio Pignatari, a capa mostra uma imagem estranha e ambígua. O que, a primeira vista, parece um olho é uma bola de gude montado sobre um ânus. Foi um gesto deliciosamente subversivo para os censores no auge da repressão autorítiária da ditadura militar.

A capa de interior contém um poema visual de Augusto de Campos “Olho por olho” (1964), uma obra que chama atenção pela força do visual na cultura contemporânea, algo que torna opressor no samba lento “Todos os olhos”: de vez em quando todos os olhos se voltam para mim/ de lá de dentro da escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói. O coro da Grupo Capote reclama eu sou inocente; eu não sei de nada; não tenho chicote; eu sou até fraco. Sua ambivalência em relação à posição do artista no Brasil daquele tempo se torna mais cáustica em “Complexo de épico,” uma crítica à seriedade na MPB: todo compositor brasileiro é um complexado. Porque então essa mania dananda, essa preocupação de falar tão sério?
Em outras músicas Tom Zé dialoga com mais generosidade e humor com a tradição musical. O melhor exemplo seria “Augusto, Angélica e Consolação” um tributo ao samba paulistano de Adoniran Barbosa que cantava a cidade suja encoberta de garoa. Na música do Tom Zé as três avenidas famosas ganham personalidades distintas. Augusta era vaidosa e gastava o dinheiro dele e Angélica andava com a roupa cheirando de consultório médico. Só a Consolação, como é de esperar, veio a tirá-lo de sua solidão. Uma vontade antropomorfista em relação a São Paulo sobressai ainda mais em “Botaram tanta fumaça” em que a cidade está cansada sufocada está doente tá gemendo de dor de cabeça.
Assim como todos os discos de Tom Zé encontramos também, críticas mordazes da industria cultural e o consumo frenético na sociedade moderna. Em “Dodó e Zezé” cria um diálogo entre um jovem que quer entender seu mundo e um conselheiro sagaz: -- sorrisos, crème dental e tudo, mas por que é que a felicidade anda me bombardeando? diga Zezé. -- é pra saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, Dodó. Em sua homenagem melancólica a Brigitte Bardot, o artista medita sobre a criação e consumo rápido de mitos imagéticos de cinema: A Brigitte Bardot está se desmanchando/ e os nossos sonhos querem pedir divórcio.
Hoje aos 68 anos, Tom Zé está no auge de sua criatividade e produtividade. Nos últimos cinco anos lançou Com defeito de fabricação e Jogos de armar, talvez seus dois melhores discos. Mas vale a pena ouvir sua produção dos anos 70 relançados em duas compilações da série maravilhosa Dois Momentos produzida por Charles Gavin. Todos os olhos aparece junto com Se o caso é chorar de 1972. O outro volume contém Estudando o samba (1975)-o disco que primeiro chamou a atenção do David Byrne-e o menos conhecido Correio da Estação do Brás (1978). São documentos de um tempo em que o artista que embarcava corajosamente numa adventura incerta e difícil em termos professionais, produzindo obras de extrema beleza e inovação. As palavras de “O riso e a faca” de Todos os Olhos sintetizam este momento para Tom Zé:
Fiz meu berço na viração Eu só descanso na tempestade Só adormeço no furacão
(texto escrito por Christopher Dunn, ao contrário do que aparecerá dito abaixo)
Escrito por Idelber Avelar às 18h53
[]
[envie esta mensagem]
Lutei por uma bandeira - agora faço luto por ela

Fiquei tão feliz com as dezenas de visitas uruguaias que até esqueci do post de hoje, que era sobre política. O colunista e blogueiro Pedro Doria gentilmente incluiu em seu blog um link para o post abaixo sobre a minha história com o PT (sim, c.d. sou eu).
Muitas das respostas à coluna de Pedro deixam claro como tanta gente ainda está disposta a se deixar enganar. Os ataques a quem critica o governo são tão repetitivos e pouco imaginativos que até dão dó. Vamos lá:
- Não, nenhum de nós achava que Lula ia mudar tudo do dia prá noite. Mas achávamos – e para isso lutamos – que um rumo de mudança ia aparecer. Esse rumo não só não apareceu como está claro que não vai aparecer.
- Não, nenhum de nós achava que o governo do PT seria uma revolução bolchevique com estatização dos meios de produção. Mas não esperávamos que a política econômica seria regida por uma receita FMI mais ortodoxa que a de FHC, nem que a política social seria esse saco de esmolas tão embaraçoso que todos os principais especialistas da área se demitiram.
- Não, nenhum de nós ignora que a economia cresceu mais de 5%. Essas são as “boas notícias”? Quando esse crescimento gerar emprego, me avise. Por enquanto está engordando banqueiros.
- Não, nenhum de nós achava que se iria governar o país como anjinhos puros. Mas não esperávamos um loteamento de cargos e tráfico de influência que de tão descarados são até contra-produtivos: o governo hoje é refém das raposas velhas da direita no congresso. E por sua própria culpa.
- Aos que nos aconselham que fiquemos no PT para mudar as coisas “por dentro”, um aviso: já não existe nenhum dentro. As reuniões do diretório são para referendar o que mandam em Brasília.
- Aos que fantasiam com golpe e dizem que alguém pode estar querendo “tirar o Lula de lá”, acordem: a direita e o capital financeiro nunca estiveram tão felizes.
- Aos que dizem que nós só criticamos e não "apresentamos propostas", leiam um pouquinho mais. Por exemplo, o volume A Economia Política da Mudança. Não, não propomos nenhum milagre. Mas propostas que vão além dessa covardia regada a lucros inéditos para os banqueiros, isso nós temos sim. Estamos apresentando-as dentro do PT há 10 anos. Fomos, paulatinamente, triturados nesses anos. Saiu Gabeira, entrou Delúbio.
E tem idiota me escrevendo prá dizer que sou "covarde" por "ter abandonado o barco". O barco, fariseus, vós o esmagastes.
Respeito muita gente que ainda está lá no PT, mas eu já fiz meu balanço desse projeto. Agora é realizar o luto por ele, e ver prá onde a gente vai com isso. Pergunta bem mais complicada, claro.
Escrito por Idelber Avelar às 22h20
[]
[envie esta mensagem]
Bienvenido Uruguay
Este humilde blog ha recibido unas docenas de visitas de Montevideo, Uruguay. Bienvenidos y vuelvan siempre. Aquí nos permitimos recibir comentario en cualquier lengua, pero muy especialmente en uruguayo. Amor, amor le tengo a ese país, y al mate en las paradas de colectivos, y a la buena onda de su gente. Bienvenido Uruguay. Si alguna vez me exiliara, allá en Montevideo sería.
Mensagem a quem lê mas não escreve português
    
Eu escrevo aqui só (ou quase só) em português, mas isso não se aplica aos leitores. Aos amigos nos EUA que me dizem que lêem o blog: Comments in English are most welcome. Comentarios en castellanos son, por supuesto, bienvenidos. Les messages en français son bienvenus. Anzeigen auf Deutsch sind willkommen. E em italiano eu não sei como diz, mas pode também. Ibitssam e meus amigos falantes de árabe, bem-vindos. Viva Babel.
Blogs Amigos
Este blog é amigo de dois blogs em língua inglesa: o Rude Pundit e Michael Bérubé. Se lê inglês, não deixe de ler esses caras.
Upgrade
Logo logo vou poder postar todas as mensagens, mesmo as mais longas, em Arial 10, que é esta letra grandinha mais bacaninha. Formato ainda vai melhorar.
Contagem regressiva – 3 dias
Belo Horizonte, aqui vamos nós. Alexandre e Laura, está chegando a hora. Começarei com frango e quiabo.
Escrito por Idelber Avelar às 14h58
[]
[envie esta mensagem]
Seminário de música popular
Hoje eu termino aqui em Tulane meu seminário sobre a história da música popular brasileira. 13 semanas de mergulho naquilo que nos faz mais orgulhosos de ser brasileiros, com um grupo de 12 ou 13 estudantes de nível de mestrado ou doutorado. Leituras mil. Tudo em português, claro. Fizemos 5 CD’s com 110 canções do período fonográfico, desde o “Lundu do Baiano” gravado para a Casa Edison em 1902 até “Conversa de Botas Batidas”, pérola pop do último disco do Los Hermanos.
Aqui vai um resuminho telegráfico do que fizemos:
Semana 1: Danças de salão do século XIX (polca, schottish, mazurka, valsa). O batuque. A controversa história do lundu, o primeiro gênero afro-brasileiro.
Semana 2: O maxixe, primeiro gênero popular urbano do Brasil. Os grupos de “chorões” e a consolidação da linguagem do choro.
Semana 3: O surgimento do samba. O gigante Pixinguinha.
Semana 4: Nacionalização do samba. Debate entre as várias versões sobre a história do samba.
Semana 5: O Universo Nordeste. O Maracatu, dança dramática afro-brasileira. A embolada, arte verbal tatataravó do hip hop. O coco e os outras cantorias batucadas na roda.
Semana 6: O baião. O gigante Luiz Gonzaga. Dorival Caymmi e a canção praieira. O ritmo como cerne da música brasileira. Jackson do Pandeiro.
Semana 7: A bossa nova e a nova utopia de sofisticação. Os festivais e a música engajada. Surge a sigla MPB.
Semana 8: A jovem guarda. A revolução tropicalista.
Semana 9: A MPB dos anos 70. Consolidação de um cânone acústico “sofisticado”.
Semana 10: Negritude na música. Black Rio. O rock nacional dos anos 80.
Semana 11: A revolução mangue beat. Fim da cisão entre música jovem e música nacional. O maracatu encontra o hip hop.
Semana 12. O heavy metal. Sepultura conquista o mundo. O hip hop. Racionais MC's rapeiam contra Carandiru. O funk carioca.
Pessoal da aula, passem aqui e deixem suas experiências favoritas com a música brasileira este semestre. Música favorita, disco favorito, discussão favorita, etc. Leitores, deixem seu alô com uma experiência com música também. Em breve este blog promoverá um concurso dos melhores discos da história da MPB.
PS1: Você gosta de samba? Leu um livro de Carlos Sandroni chamado Feitiço Decente: Transformações do Samba no Rio de Janeiro, 1917-1933? Não? Então vá ler!
PS2: Este fim de semana o blog terá seu primeiro blogueiro convidado. Meu bróde véio Christopher Dunn, especialista em tropicália, contracultura e outros babados mais, dará prosseguimento à série Disco da Semana, inaugurada na sexta passada com Fellini. Chris vem aí com um discaço e uma resenha. Não percam.
Escrito por Idelber Avelar às 16h27
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|